A verdade sobre os crimes relacionados ao RPG 27


Durante anos, jogadores de RPG tiveram que aturar programas sensacionalistas, sites gospel e pessoas desinformadas acusando-as de serem satanistas e assassinos, por conta de noticias de crimes que apontavam jogadores de RPG como culpados. Mas passaram-se os anos, e chegou a hora de saber se foi confirmada ou não a culpa de jogadores de RPG nestes crimes.

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O escritor e autor de RPGs Marcelo Del Debbio, junto a Daemon Editora, buscou informações sobres os casos, e em conjunto com os autores dos blogs RPG Educ e Cortando a Pelicula, conseguiram informações dos crimes relacionados a RPG que estouraram na televisão. Vejam os resultados:

TERESÓPOLIS

Atualização 1: Um estudo mais detalhado deste caso pode ser lido neste post.

Em 14 e 20 de Novembro de 2000, na cidade de Teresópolis, RJ, duas garotas de 14, Iara dos Santos Silva, e 17, Fernanda Venâncio Ramos, anos foram estupradas, torturadas e estranguladas com um intervalo de seis dias entre os crimes. Sônia Ramos, 42, madrasta de Fernanda, a segunda vítima, levantou a suspeita de que as atrocidades pudessem estar ligadas ao jogo por pura ignorância e desespero, porque sua filha [a vitima] era jogadora de RPG e andava na companhia de outros garotos que jogavam GURPS e Vampiro [sua alegação se baseou no fato de que sua filha andava as voltas “com pessoas que se fantasiavam de vampiros”]. Inclusive a polícia chegou a prender um jogador de RPG, que não será identificado uma vez que o mesmo era inocente e não merece ter seu nome publicado, que passou quatro dias na cadeia por causa deste absurdo.

O verdadeiro assassino das garotas, HUMBERTO VENTURA DE OLIVEIRA, de 25 anos, confessou o crime 6 dias depois da prisão do RPGista. Ele era o jardineiro da casa, analfabeto, e nunca sequer passou perto de um livro de RPG. A imprensa irresponsável, foi muito rápida em divulgar versões fantasiosas sobre o “jogo da morte”, mas a publicação da confissão do jardineiro foi apenas uma nota, no final de uma página de jornal.

OURO PRETO

No dia 10 de outubro de 2001, Aline Silveira Soares viajou do Espírito Santo com sua prima e alguns colegas para Ouro Preto para participar da “Festa do Doze”, que é uma espécie de Carnaval fora de hora entre as faculdades da região, com R$40,00 e a roupa do corpo para passar três dias. Dias depois, seu corpo nu fora encontrado em cima de uma lapide, em um cemitério da cidade.

Segundo o laudo, Aline consumiu drogas durante o dia anterior ao de sua morte. Esta informação foi confirmada por diversas testemunhas que também participavam da festa, em Ouro Preto [testemunhas que foram aparentemente ignoradas pelo delegado Adauto Corrêa após as investigações tomarem o rumo circence]. Aline não tinha dinheiro e acreditou que conseguiria fugir do traficante sem pagar pela droga que consumiu, mas no dia de sua morte [14 de Outubro de 2001], foi abordada pelo criminoso no caminho de volta para a república onde estava hospedada [o cemitério em questão fica exatamente no meio do trajeto entre o local da festa e a república]. Testemunhas [que também foram aparentemente ignoradas no inquérito oficial] disseram ter visto Aline conversar com um conhecido traficante da cidade na porta do cemitério algumas horas antes de sua morte.

De acordo com especialistas em crimes relacionados a drogas, Aline provavelmente teria se oferecido para ter relações sexuais com o traficante para pagar a dívida, pois as roupas da garota foram encontradas “cuidadosamente dobradas e dispostas ao lado do local do crime, sem nenhum indício de violência ou de coerção”. Aline tomou o cuidado de deixar suas roupas sobre uma das lápides, dobradas com a jaqueta por baixo, para que não sujassem.

Ainda segundo o laudo oficial da perícia técnica, durante a primeira facada que Aline recebeu, o corpo estava na posição acocorada, popularmente conhecida como “de quatro”. Segundo especialistas em crimes de estupro, o traficante provavelmente teria tentado obrigar Aline a realizar sexo anal, que possivelmente foi rejeitado pela garota, resultando no primeiro golpe com a faca. O traficante, tendo ferido Aline seriamente, não viu alternativa a não ser terminar de matá-la. Para disfarçar, o assassino colocou o corpo de Aline em posição deitada sobre a lápide [pelas fotos da perícia e rastros de sangue, pode-se atestar que o corpo foi movido após a sua morte] para tentar atrapalhar as investigações.

Quando o corpo foi encontrado, os policiais começaram as investigações pelos locais em que Aline se hospedou e em uma das repúblicas foram encontrados alguns livros de RPG, que o delegado, evangélico confesso, classificou como “material satanista”. A partir disto, um vereador oportunista chamado Bentinho Duarte viu nisso uma chance de se promover realizando terrorismo psicológico e, junto com o Promotor Fernando Martins [conhecido por ter tentado proibir a distribuições de jogos como Duke Nuken e Carmagedon], moveu ação contra as empresas Devir Livraria e Daemon editora tentando a proibição de 3 títulos [Vampiro: a Máscara, Gurps Illuminati e Demônios: a Divina Comédia].

Detalhe, 4 garotos chegaram a ser presos injustamente, que por suas vez não são jogadores de RPG [fato comprovado pela mãe da vítima em depoimento ao vivo na Rede Bandeirantes de TV].

GUARAPARI



Polícia Civil do Espírito Santo prendeu, na noite de 12 de Maio de 2005, dois acusados pelo assassinato do aposentado Douglas Augusto Guedes, da mulher dele, a corretora de imóveis Heloísa Helena Andrade Guedes, e do filho do casal Tiago Guedes, em Guarapari. Os corpos dos três foram encontrados amarrados e deitados em camas no dia 5 de maio. Na mesma data, eles foram sepultados.

O delegado da Divisão de Homicídios de Guarapari, Alexandre Linconl, evangélico, disse ao Portal Terra que os assassinos MAYDERSON DE VARGAS MENDES, 21 anos, e RONALD RIBEIRO RODRIGUES, 22, confessaram que eles mataram a família motivados pelo jogo de RPG, mas essa “confissão” não ocorreu imediatamente após o crime.

O crime que Mayderson e Ronald cometeram é o de LATROCÍNIO QUALIFICADO E PREMEDITADO, ou seja, mataram para roubar de uma maneira cruel e sem dar chance de defesa às vítimas, com premeditação. Esse é um crime hediondo, sendo julgado e condenado diretamente por um juiz criminal. Ambos os acusados já tinham ficha criminal [respondendo processo por Porte ilegal de Arma].

O que o advogado de defesa da dupla estava fazendo era alegar que eles cometeram o crime influenciados pelo jogo e, com essa ação, tentar reverter o crime para Homicídio Simples, baseado no tal jogo que ninguém sabe o que é. Com isso, os assassinos iriam para um júri popular, que poderia ser muito bem influenciado por todo esse novo circo que a mídia sensacionalista armou e, jogando a culpa em cima do RPG, e possivelmente Mayderson e Ronald poderia no lugar de irem para presídios convencionais, irem realizar tratamentos psiquiatricos.

O que tem de ficar bem claro é o seguinte: os criminosos entraram na casa, apontaram armas para Tiago e sua família, doparam a família sob a mira do revólver, levaram o garoto até o caixa eletrônico onde roubaram R$ 4.000,00 de sua poupança e depois executaram friamente a família com tiros na cabeça, para não serem reconhecidos. A história do “RPG” só apareceu dois dias depois que os assassinos foram capturados pela polícia, sob orientação do advogado de defesa da dupla.

É bom lembrar, já que a mídia “esqueceu”, que, graças à intervenção da Daemon Editora e da conversa de Marcelo Del Debbio, escritor especialista em Role Playing Games, com o delegado de Guarapari ao vivo em uma entrevista na Rede Bandeirantes de TV, o advogado de defesa da dupla abandonou o caso, deixando os dois criminosos sem advogado à espera de um defensor público.

Com estes textos, podemos começar a nos defender dos três falsos “crimes do RPG”. Já está na hora destas informações serem passadas para jornalistas sérios que queiram nos ajudar a fazer a verdade aparecer.

Fontes e agradecimentos a:

Daemon Editora
RPG Educ
Blog Cortando a Pelicula
Blog do Marcelo Del Debbio

Atualização 2: Familiares de alguns acusados entraram em contato com o blog para que suas fotos fossem retiradas, para a proteção dos mesmos.

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Comentários

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27 pensamentos em “A verdade sobre os crimes relacionados ao RPG

  • Marco (QGnet)

    Realmente isso tudo é um absurdo e talvez essa questão abordada se deva a um simples fator: “sensasionalismo”, a mídia se preocupa em divulgar e gerar polêmico sobre um determinado assunto, mas depois de tanta “tempestade num copo d’água”, eles não vão através de retratação ou mostrar que existe mais informação além da passada.

    E claro, isso também é meio que da cultura do brasileira, não costuma sempre seguir de “cabresto” e nunca olhar para os lados.

    Eu nunca joguei RPG de mesa, mas conheço pessoas que jogam, nenhum assassino ou maluco, jogo RPGs eletrônica, já os criei até, e nunca matei ninguém… a educação que recebi em casa, com meus familiares e com meus mestres em minha formação acadêmica vai além de qualquer jogo, seja lá qual for o estilo.

    Parabéns pelo post Rafael, conforme conversamos publiquei o material no QG com o devido crédito.

    Abs.

  • GG

    Ótimo post! Mostra muito bem a irresponsabilidade de parte da imprensa perante a sociedade.
    E grande Del Debbio também! Atualmente, é um dos grandes nomes do RPG nacional e defensor dos RPGistas! Ele é o cara!
    Espero que este post seja divulgado em mais blogs também.
    Eu farei a minha parte.

  • Adriano Cleber Tume

    Parabéns e obrigado. A anos que queria saber a verdade sobre como estes casos terminaram, ja que um certo tipo de imprensa não divulga tais notas com o mesmo alarde quando deixam de ser polêmicos.

    Não nego que meu sangue ferveu durante a leitura. Ja fui bem criticado e perseguido por jogar RPG quando estas bombas estouraram. Sempre soube que não passavam de bobagens, embora lamente pelas vitimas, sempre soube que não passavam de crimes comuns, terríveis admito, mas ainda assim comuns, feito por psicopatas comuns e que nada tinham a ver com o RPG, exceto o maldito fato dos livros aparecerem em hora e locais errados, vinda a cair nas mãos de incompetentes, no que diz respeito aos investigadores e de aproveitadores, no que diz respeito a imprensa que desejou ganhar com a história. Só para concluir, cada vez mais eu passo ter mais nojo de evangélicos imbecis e acéfalos que nada veem além daquilo que consideram, segundo sua lógica fajuta e distorcida, bom e correto.

    Me sinto liberto com tudo isto. Obrigado a todos que participaram desta busca e divulgação da verdade.

    E parabéns mais uma vez.

    • Rafael Portillo Autor do post

      Na verdade, o texto tem uma conclusão, só não está explicita, o que é realmente um erro. Mas, creio que a explicação não é muito necessária, uma vez que o texto é voltado para aqueles que conhecem o assunto, uma vez que os casos já foram divulgados diversas vezes pela mídia.

      E levando em conta que este post teve quase 10 mil visitas só este mês quase que confirma meu pensamento.

      Obrigado pelas observações!

  • Jack Sorridente

    O RPG em si ele possui conteúdo sobrenatural em geral, mas isso não significa que o ocultismo tenha relação com atrocidades como esta, desvincular o RPG do sobrenatural só reforça ainda mais a opressão do cristianismo na cultura de uma forma geral, pois quando um assassino evangélico mata, nunca é por conta de sua religião, mas quando um ocultista mata sempre é por culpa de sua crença.

    • Marina

      Muito pelo contrário, a crença é um motivo pra NÃO desconfiarem da pessoa. Tipo “ele nunca faria isso, ele é evangélico.”. Ou então “ele é evangélico, nunca imaginei que seria capaz”.
      Preconceito idiota.

    • Jorge

      Cara, pra mim é ÓBVIO que a crença religiosa tem contribuição de fatores históricos e sociais, né?! Ninguém vira cristão simplesmente pelo cristianismo, mas tem um lado cultural nisso. No caso do Brasil, os valores cristãos vão sempre predominar pq aqui é um país predominantemente cristão. Os paradigmas vão passando de geração em geração, sejam eles quais forem. Ou seja, se vc tentar nadar contra a correnteza, você vai ser taxado por macumbeiro, satanista, sim. Você pode escolher o que fazer em relação a isso: ligar o foda-se, ou ficar aí com esse ativismo barato nos comentários. Estou dizendo isso porque acho uma merda esses nerdzinhos metidos a cult falarem mal do cristianismo sem saber merda nenhuma de sociologia, antropologia, psicologia, etc.

      • Jack

        Para falar mal do cristianismo precisa ser formado em sociologia, antropologia, psicologia, etc? de onde vc tirou tamanha besteira? Qualquer um que tenha um pouco de inteligência e bom censo( que não é o caso dos cristãos) reconhece que é uma religião insipida assim como o Islamismo.
        No meu ponto de vista pessoas que conseguem nadar contra a correnteza são pessoas fortes que não se deixam abalar pela grande massa estúpida e ignorante, do contrário do que acontece com as pessoas que escolhem sempre o caminho mais fácil, ou como vc disse o de ir junto a correnteza.
        Terminando eu queria saber qual os requisitos para se falar mal de ocultistas? se para falar mal do cristianismo as pessoas tem que possuir conhecimento em sociologia, antropologia, psicologia, etc, então para falar mal do ocultismo a pessoa no mínimo deve ter conhecimentos arcanos, místicos, sobrenaturais e etc.

  • Ramires

    boa matéria, entretanto o latrocínio, como qualquer crime doloso contra a vida é julgado pelo tribunal do júri e não por um juiz togado, que apenas faz a dosimetria da pena de acordo com o crime e as qualificadoras ou privilégios (atenuantes), a diferença dos crimes dolosos contra a vida tidos como hediondos dos demais crimes dolosos contra a vida esta no regime de progressão de regime, de fechado para semi aberto por exemplo, que é de 1/6 da pena para homicídio comum ou qualificado, subindo para 2/5 (réus primários) e 3/5 (reincidentes) nas condenações por crimes hediondos.

  • Pedro Mendes

    Apesar de em alguns trechos o autor induzir o leitor a determinadas conclusões eu acredito que seja de suma importância que essas informações sejam levadas à tona e até mesmo discutidas e refutadas posteriormente. Da mesma forma que video games têm sido acusados de deturpar a mente de seus usuários assim também é com o RPG. Com novelas como “Rebeldes” mostrando adolescentes fazendo rituais com capa e etc. Esse tipo de “caça as bruxas” não é nova a muitos anos os ateus sofrem com o mesmo tipo de preconceito. São imputados a eles crimes e condutas cruéis e nefastas apenas por serem descrentes. Infelizmente em ambos os casos a Igreja tem forte influência. Apenas através da disseminação de informação poderemos mudar essa situação.

  • jtnono

    em brasilia é a capital “mundial da magia” ,não há tantos “magos, bruxas, ciganas, druidas…” como lá. e por sinal alguns locais de encontro tinham rpgistas e magos. o que tinham em comum:

    interesse por Mitologia

    algum conhecimento por sobrenatural

    um pouco de ocultismo falso ou não

    e principalmente A MESMA FORMA DE SE EXPRESSAR

    mas quando um mago cometia um crime sempre foi mais fácil se passar por maluco incapaz, dizendo facilmente que era rpgista……

  • Renan

    Fatos explicadíssimos, mas vale lembrar que se defender de um fato alegando que os delegados eram “evangélicos” é uma falácia igualzinha a falar que as vítimas foram assassinados por culpa dos RPGs!

  • Renata

    A foto não é da Aline, é da prima dela que foi absolvida no júri. Os fatos são interessantes, mas o que eu acho curioso é que essa versão sequer foi levantada pelos advogados de defesa dos quatro acusados… a tese de defesa e a absolvição foram baseadas apenas na ausência de provas suficientes para ligar os quatro ao crime (eu sei porque eu fui ao júri).

  • Albert Grimreaper

    Perdi a conta de quantas Live action participei e de quantas mesas já participei e uma coisa é certa em 20 anos jogando RPG nenhuma das pessoas com quem joguei foram influenciadas a tal ponto, tem sempre os mais entusiastas que transferem o personagem para a vida real, mas nada de agressivo, uma coisa mais de aparência do que atitudes e ações, o que de certo modo se não vigiado pode se tornar perigoso, mas raros os excessos, afinal quem já jogou Vampiro ou Lobisomem criou suas fantasias pessoais, hoje com 35 anos vejo que quando tinha 16, queris ser um garra vermelha ou true Brujah, mas nem por isso sai cometendo atrocidades, o que posso dizer do RPG que ele me ensinou e me fez socializar, coisa muito difícil nos dias de hoje.